sexta-feira, 27 de abril de 2007

"O Grande Jogo"

Política, Cultura e Idéias (na visão de Demétrio Magnoli) em Tempos de Barbárie.

Fernando Henrique Cardoso diz que “num ambiente cultural e político marcado em geral pelo interesseiro, dogmático ou preguiçoso ‘silêncio dos intelectuais’, de um lado, e pela gratuidade inculta de ataques pessoais, de outro, os textos de Magnoli soam como uma bem-vinda nota dissonante”. Pode-se concordar ou discordar de Magnoli, mas suas análises devem ser reconhecidas por uma marcante característica: a coragem. Magnoli é corajoso ao abordar assuntos que envolvem tanto a política mundial, quanto a nacional. Sua posição é sempre demarcada, clara, e seus argumentos têm o poder de tornar a leitura de seus artigos extremamente agradável, instigante, mesmo quando não se compartilha da mesma posição que o autor. Daí, pode-se imaginar, vem a classificação de “nota dissonante” dada por Fernando Henrique Cardoso aos seus textos.

A “nova ordem” mundial, alardeada e defendida pelos norte-americanos, já não existe como pensada por eles. A análise de Magnoli apresenta a “guerra ao terror” como uma tentativa norte-americana de coordenar e dirigir esta “nova ordem”, tornando seus valores como “nossos valores” na defesa da liberdade. Mas, esta liberdade suprime a liberdade dos mais fracos em prol da liberdade da “Espada de Deus”. Afinal, ela “não deve explicações aos poderes terrenos” na guerra contra inimigos sempre difusos.

Estas ações norte-americanas abrem espaço à ampliação da utilização da violência armada por outros Estados. Israel propaga o “terror de Estado”, enquanto os “homens-bomba” se matam por ideais fundamentalistas. China e Cuba são apenas mais dois exemplos, de muitos que poderiam ser citados, de desrespeito aos direitos humanos. Todas estas situações parecem legitimar as ações nazistas de Hitler no passado. A diferença existe, claro, mas é difícil de se encontrar.

A União Européia se organiza para tentar limitar o poder e a influência desproporcionais da única hiperpotência, os “defensores da liberdade”, ou Estados Unidos da América. O Protocolo de Kyoto separa os dois lados. Como bem explicado por Magnoli, onde os europeus viram a oportunidade os norte-americanos viram o custo. Os países pobres parecem esquecidos. A África, vitimada pela AIDS e pelas freqüentes brigas etnotribais, esquecida pelas potências, é só mais um custo. Mas, vira oportunidade quando há petróleo, diamantes ou bens naturais para se extrair de lá.

O mundo globalizado é o mundo das potências, posto que o Brasil almeja alcançar a todo custo, mesmo que tenha que negar seus valores e história, ajudando no estabelecimento de governos ilegais, como no Haiti. Magnoli resume esta situação ao dizer que “liderança não se proclama, se exercita”. Há exceções, é claro: Bush a exercita e pode se gabar proclamando-a. No entanto, a realidade brasileira é outra. Apesar do ideal de “nação como família”, proposto por Lula e que, para Magnoli, rompe com o contrato republicano, o país é marcado por divisões. Dividem o Brasil em raças, separam a favela das cidades, como um submundo perigoso e prejudicial, que é tratado como Bush trata seus inimigos externos, com extrema violência. Porém, o poder paralelo, com base estabelecida nas favelas brasileiras, também tem referências. Sua semelhança com o fundamentalismo islâmico está no fato de que quanto mais violento e ilegal o combate maior seu crescimento e força. Ambos crescem, desenvolvem, mas, não há expectativa de sua morte.

Magnoli acerta em muitos prognósticos: estamos em tempo de barbárie. A crise é real. Mas, se ela separa dois períodos de estabilidade como o autor acredita, torna-se complicado encontrar, no passado, a estabilidade anterior à crise em que nos encontramos. Estabelecer prognósticos futuros, então, é mais complicado. Se chegaremos a uma estabilidade, ela está distante de poder ser claramente vista. Neste caso, Sam Goldwyn diria “nunca profetize, especialmente sobre o futuro”.
Hugo Rocha

Um comentário:

dEko disse...

Putz... Muito bom mesmo. “liderança não se proclama, se exercita”. Algo muito interessante. Para alguém como eu que dificilmente se liga em assuntos como esse, é sempre bom ler textos como esse e aproveitar para rever alguns conceitos.