sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A vida em minhas mãos

C. Wesley*

A cena é forte pra quem vê, sombria pra quem vive. Umas boas doses de álcool sem que o corpo e a mente estejam acostumados. Leve sombra de tontura, nada demais até a sombria cena posterior. Risos e calmarias ao mesmo instante. Inconstância de atitudes, voz trêmula, insegura e já não muito nítida. Imagens distorcidas e preguiçosas de uma realidade que agora acontece muito rápido para a percepção da mente. Aumento de nível alcoólico no sangue. Aumento de risco, afinal, como disse, a mente e o corpo não estão acostumados. Uma parada perante uma verdade, o ser humano. Sinal de perigo na vias interiores do organismo. Rejeição do que foi posto nas correntes sanguíneas. Pronto. Começa agora toda a cena. O que era leve se tornou incontrolável; o que era apenas momentos de tontura se tornou em intenso estado de sobrevivência. O corpo luta, a mente luta, o coração agüenta firme. Tremedeiras e repulsões. O corpo se debate. Ninguém pode ajudar, apenas com alguns copos de água somente. Ouvem-se vozes como que distantes dizendo que faz bem, água. Vômitos, tonturas fortes com tendências a desmaios, mas a mente luta, o corpo se retorce por dentro, a vida se torna uma ordem agora. Numa luta sempre há feridos, sempre há sangue sendo derramado, é sobrevivência. Alguém tem que morrer para que o outro fique de pé, raramente os dois entram em acordo ou morrem juntos. Mas a luta é do lado de dentro, feridas deverão ser curadas mais tarde também do lado de dentro, caso o indivíduo sobreviva. Há a sensação de que não vai passar, mas a consciência ainda diz que sim, vai passar, é só esperar e lutar. Passa pela mente a vontade de desistir, e parece que é o que vai acabar acontecendo. Tudo começa a sumir, os olhos começam a querer não ficar mais abertos, a mente está cansada, o corpo já está em dores. Desisto! Não, não posso! É a vida que está em jogo. Mantenho os olhos abertos, tento acordar a mim mesmo no meio disso tudo. É difícil. Mais água, e mais água. Mais vômitos, e dores ainda mais fortes. Aparecem então amigos para nos sustentar em pé. O corpo sente frio, não há mais resistência. Há somente braços que num abraço envolvem e conduz calor corpóreo. Aconchego. Alguém está por perto, e é a única coisa que podem fazer por mim, abraçar como quem diz "estou aqui contigo". Ninguém pode lutar junto. Não. Agora estou sozinho. A vida em minhas mãos. Apenas Eu e Deus. Horas e horas de luta, até que tudo começa a ficar menos confuso, mas suportável. "Vamos embora", ouço dizer. Vamos, digo dentro de mim. Ficaram as dores, os traumas, medo. Mas a vida continua como que se tivesse parado naquele momento, naquele instante. Uma luta intensa e constante me assola, sem parar, há muita dor, há feridas e curas, há um longo caminho ainda e parece que não vai acabar. Tento me manter são, acordado, por vezes pareço que vou desmaiar. Não, não posso! É a vida que está em jogo. Quem está de fora apenas sente a impotência do ser humano perante a dor. E tudo continua... Pareço carregar a vida nas mãos, cambaleante e ofegante, caminho para o que não sei que virá. Nessas horas apenas penso em Deus.

*Carlos Wesley é mineiro de Belo Horizonte. Músico, compositor e poeta. Amigo, que encontro na estação da vida chamada Hoje. Publica seus textos em seu blog pessoal, Conversas da Alma.

Um comentário:

Andy disse...

Descrição bastante interessante... Lembrou-me algumas situações...