sexta-feira, 20 de março de 2009

Uma jornada de amor

O comportamento do próximo, quando diferente do nosso, nos incomoda. É a experiência de viver em comunidade que nos revela essa verdade recorrente. Falo especialmente da preocupação que invade o espaço do próximo, e não daquela motivada pelo cuidado amoroso e saudável que, naturalmente, devemos ter por aqueles que amamos.

Nas sociedades e comunidades que se intitulam cristãs, a invasão do espaço do próximo se revela na nossa preocupação com aquilo que ele faz. Com isso, não temos tempo para atender o chamado de Cristo de amá-lo como amamos a nós mesmos. Amor que exige descobrir antes quem o outro é.

A dificuldade que temos em aceitar que aquele que pratica coisas condenáveis aos nossos olhos é igualmente incluído pela Graça e pelo Amor do Deus-Pai revela que ainda não compreendemos a plenitude e a grandeza do chamado de Jesus. Quando nosso olhar moral sobrepõe o olhar amoroso de Cristo, somos revelados. Se tivermos coragem suficiente de encarar aquilo que nos habita, vamos perceber que o outro faz coisas que nós também gostaríamos de fazer. Quando emitimos juízo, condenamo-nos também. Simples assim.

Aos nossos olhos, estamos abrindo mão de algo que nos interessa. E é nesse espaço que a linha tênue entre Graça e Lei se evidencia: na sensação de auto-justificação. Pela percepção religiosa, entende-se que se passou a seguir certas normas para obter a aprovação divina e, também, dos homens. Pelo panorama de Cristo, as práticas que abandonamos não têm mais qualquer relevância para nós; por isso, as deixamos para trás, à medida que seguimos em frente, na caminhada. Isso é natural! Faz parte do processo.

A consciência da Graça nos alça a outros níveis de compreensão, onde percebemos que o fato de termos deixado práticas humanas para trás não tem a ver com qualquer esforço pessoal. Faz parte apenas de um ponto mais adiante a que chegamos na caminhada. É natural que inúmeras coisas percam seu poder de atração sobre nós ante o prazer imensurável despertado pelo novo que encontramos na caminhada. Com anseios maiores, há menos tempo para práticas infantis que ficaram em pontos do trajeto já trilhados.

Nossa escolha entre amar o outro pelo que ele é ou amá-lo dependendo daquilo que ele faz varia de acordo com a trilha em que a gente está. Na trilha do Amor sabemos a hora certa de advertir quem amamos. Reconhecendo sempre o outro como pessoa e não como parte de uma coletividade homogênea. Nesse sentido, toda admoestação é individual. Pois o Amor está na dedicação exclusiva, em saber que os processos são individuais e em compreender que cuidar significa investir tempo e paciência. Oferecer um pacote de regras nada tem a ver com o Amor. É uma tentativa de otimizar tempo, reduzir esforços e gerar seres que se unem pela prática exterior. Comunhão falsa, uma vez que a unidade só existe pela realidade do coração.

Que nossa consciência seja sempre a de quem avança no Caminho. E nunca a de quem já alcançou o fim da caminhada. Que nos ocupemos em amar e em ajudar o próximo no seu trajeto pessoal. Conscientes da nossa pequenez e de que somos servos uns dos outros, prossigamos sabendo-nos medíocres alcançados pela Graça. Para que isso ocorra, é importante reconhecer que até mesmo a oportunidade de guiar o outro na caminhada é dom. Nada tem a ver com nossa capacidade, mas com a misericórdia de Deus.

Meu desejo é que quando avançarmos na caminhada, adquirirmos anseios maiores e não tivermos mais tempo para práticas antigas, que nosso tempo seja sempre dedicado ao próximo, em Amor. Se nossa esperança, em Cristo, já ultrapassa os limites deste mundo, nada mais certo que transmitir essa Paz a quem ainda não a experimenta.

Hugo Rocha
Essa reflexão também pode ser lida no blog Geração Renovada

2 comentários:

Leandro Neri disse...

"Se tivermos coragem suficiente de encarar aquilo que nos habita, vamos perceber que o outro faz coisas que nós também gostaríamos de fazer. Quando emitimos juízo, condenamo-nos também."

Quando percebemos que os outros são nada mais nada menos que iguais a nós, muita coisa em nossa percepção muda...

"É natural que inúmeras coisas percam seu poder de atração sobre nós ante o prazer imensurável despertado pelo novo que encontramos na caminhada."

Nossa percepção vai mudando e a gente vai amadurecendo...
E a vida pode se tornar mais e mais interessante quando nós a acompanhamos acompanhados de seres humanos imperfeitos como nós...

Andy disse...

o tempo passa e nossa forma de encarar muitas coisas muda...
e de crianças nos tornamos uns quase 'pré-adolescentes' quando se trata da relação que temos com as outras pessoas... rs

mas não é tão simples deixar certas atitudes e preconceitos de lado... pelo menos não enquanto o 'egoísmo' durar... xD

realmente não sou bom com essas reflexões... rs