terça-feira, 2 de junho de 2009

Sempre fui velho...

As pessoas se assustam quando digo que sou velho! O que é compreensível. Tenho apenas 22 anos (de acordo com o calendário gregoriano) e, a partir da visão cronológica do tempo, é impossível que alguém seja velho com pouco mais de duas décadas de vida. Mas não é que eu me sinta velho. Eu o sou... Certo está o Rubem, quando diz que a velhice nada tem a ver com o tempo medido pelo relógio. Para ele, a verdadeira velhice tem a ver com as batidas do coração. Sendo assim, não resta qualquer dúvida: sou velho! Meu coração já bateu (e ainda bate) demais!

Intensidade! Gosto dessa palavra. Vivo de intensidade em intensidade. Pouco tempo resta para a calmaria. Não há descanso... Os dicionários dizem que há intensidade onde existe muita atividade. E, para mim, a velhice é a fase da vida em que a atividade mais se manifesta. Outra vez só é possível entender o que digo a partir da realidade do coração. Não falo de movimento do corpo, mas de um rebuliço interno. Movimento provocado pela saudade. Movimento que se dá na memória e no coração.

Na velhice a saudade se manifesta. Trazendo de longe os muitos mundos que ficaram para trás. Lugares. Pessoas. Histórias... Mistura que transforma o passado em presente. Em meus 22 anos, já carrego muitos mundos dentro de mim. Passado que me visita diariamente. Intensidade que machuca, mas que também é bela. Lembro que quando eu tinha 17 anos, idade do Wendell, a intensidade já me visitava. Não experimentei a ‘pequenidade’ que ele, hoje, vive... Até mesmo as lembranças da infância me revelam: nasci velho!

Hoje, quando eu e Raquel voltávamos da nossa caminhada matinal, paramos para uma breve conversa com o ‘seu’ Manoel, como fazemos todos os dias. Ele, que tem 87 anos, conversava com um amigo de 79. Momento indescritível e delicioso. Minha alma foi visitada pela saudade dos meus dois avôs... Meus amigos! Ah, como eu gosto dos velhos (assim como o Rubem, detesto a palavra idoso).

Ainda há quem pense que o reconhecimento da minha velhice seja ruim. Acham que é um problema sério eu ser velho aos 22 anos. Tolos... Ignoram a beleza que há na velhice. Ontem recomendaram-me procurar a ajuda de um psicanalista. Querem obrigar-me a ser jovem. Apenas ri. E fui compreensivo. Como a velhice da alma não deixa marcas físicas, raros são os que percebem que nasci assim. O amor que tenho pela Vida confunde quem apenas compreende as batidas do relógio. À pessoa que me recomendou procurar ajuda na psicanálise, receitei que leia poesia! Talvez ela entenda a beleza da velhice. Talvez compreenda que “todos os poetas já nascem velhos!” (Rubem Alves)

Hugo Rocha
*Nota: texto escrito sob inspiração da leitura de As cores do crepúsculo – a estética do envelhecer (Papirus), de Rubem Alves.

5 comentários:

Andy disse...

Amooo demais...
li um fragmento desse texto do Rubem...
E me encantei... =]

Lindo texto mano...
aproveite a sua velhice...
=]

saudade

Leandro Neri disse...

Apenas um comentário:



Vc só tem 22 anos? O_o

.hugo rocha. disse...

isso não foi um comentário, leandro

foi uma pergunta!

[pra não perder o hábito de corrigir, rá xD]

resposta:

não. na verdade, tenho 22 anos, alguns meses e ainda alguns dias, mas tenho preguiça de computar

:)

Ruivaaaa... disse...

"Tolos... Ignoram a beleza que há na velhice. Ontem recomendaram-me procurar a ajuda de um psicanalista. Querem obrigar-me a ser jovem. Apenas ri."

E eu estou dando gargalhadas até agora...XD

Laís disse...

Mas que texto lindíssimo. Também nasci velha, e gosto de ser assim. :)