quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Daquele que ama...

Quando havia desistido de participar daquele jogo três anos antes, ele não sabia que ainda se veria envolvido com ela dali pra frente. Mas, a despeito da sua decisão, ela insistia em reaparecer, das mais variadas formas. E só conseguia despertar nele um sentimento: desgosto. Ele repelia qualquer possibilidade de deixá-la fazer parte novamente da sua vida.

Era inevitável tentar fugir dela. Insistentemente, ela reaparecia. E nas horas menos apropriadas. Tentando retomar os laços, os antigos afetos, projetos. Mas... não! Ele não tinha mais qualquer disposição. A vontade de construírem algo juntos já se havia esvaído. Seu estômago se embrulhava só de pensar em retomar um relacionamento que tantas feridas lhe causara.

Convicto, ele continuara a fugir. Procurara novos ambientes, novos relacionamentos, novos amigos. Pessoas com quem pudesse desenvolver uma comunhão sadia e, assim, retomar o rumo de crescimento que havia abandonado, aos poucos, sem perceber, ao longo do tempo em que esteve junto a ela.

Ela o enojava. Ele tinha certeza que, por influência maligna, ela há muito havia deixado de ser aquilo que deveria ser. O rótulo não mais correspondia ao conteúdo que ela carregava. O asco era tamanho que até ouvir o nome dela o incomodava. Ele sabia que a imagem dela já estava em processo de falência. Muitos, gradualmente, começaram a perceber quem ela era.

Antes, admirada. Agora, rejeitada. Inevitável, pensava ele, seria a sua queda. Mas isso pouco importava. O que ele mais queria era se ver livre dela. Absolutamente. Liberdade. Um anseio. Uma vontade. Que, a despeito da busca, não se concretizava; insistia em não ser realidade. Seus amigos insistiam em trazer-lhe notícias. Informar-lhe sobre os novos rumos que ela tomara.

E, apesar de toda a repulsa que sentia por ela, ele só queria ficar longe, distante. Não lhe desejava nenhum mal. Ele sabia que, inevitavelmente, o mal lhe atingiria. Mas não seria pelo trabalho das suas mãos. Seu principal anseio era ser capaz de apagar, da memória, qualquer lembrança de que ela um dia existira. Impossível. Lembranças não se vão tão facilmente. Fortes como as que ele tinha, talvez nunca.

Mas o milagre (sim, só podia ser milagre) enfim chegara! Ele não mais sentia dores. De repente, ele acordou e percebeu que feridas antigas haviam se cicatrizado. A indiferença tomara lugar da repulsa. Ela não tinha mais poder sobre seus sentimentos. Ele, enfim, se encontrava liberto.

No coração, apenas uma pequena pontada de tristeza. Ele estava liberto, sim! Mas, assim como ele, muitos ainda se encontravam iludidos. Acreditavam e remetiam a ela amor, cuidado e admiração. Havia uma nova dor com a qual ele teria que lidar. Agora, a dor por ver outros – inclusive amigos - enganados por quem antes o enganara.

Não seria fácil. Mas essa dor não lhe causaria sofrimento como a anterior. Era uma dor diferente. Semelhante a um fogo que o incendiava. E motivava a seguir em frente, sem desistir do amor. Ele havia decidido aprender a amar verdadeiramente. E esse aprendizado o impulsionava.

Feliz, pôde constatar: ela não fazia mais parte da sua vida. O espaço antes dedicado a ela, agora, estava tomado. Seu coração foi invadido por uma certeza: verdadeiramente, todas as coisas contribuem para o bem daquele que ama...

Hugo Rocha

Um comentário:

André disse...

e vc me ensinou mais do que eu jamais achei que aprenderia... vc me fez entender que ela não liberta, mas aprisiona... que ela não estende a mão, mas seleciona aqueles quem tem as mão mais fáceis de manobrar... eu estou apenas começando a caminhar... mas vc me ajudou a dar os primeiros passos... e acima de tudo, me anou, e me acolheu quando eu mais precisei... vc esteve aqui no melhor momento, e ficou durante o tempo necessário... e foi maravilhoso por estar com vc... o seu amor me fez entender muito mais da graça de Deus e de seu amor infinitamente maior... obrigado por ser quem és para mim, e obrigado por mesmo distante fisicamente, caminhar um pouco mais devagar, para me deixar seguir ao seu lado, mesmo que isso signifique atrasar um pouco seus passos... amo sua companhia mano! =D