segunda-feira, 29 de junho de 2009

Repetir

Ser repetitivo não é considerado algo muito legal (nem mesmo essa palavrinha pode ser considerada “legal”). Mas, com exagerada frequência, dou-me o direito de ser repetitivo. Neste espaço, repito ainda um pouco mais. Para mim, repetir não tem o significado que tem para a maioria das pessoas que conheço. Nem sempre repetir demonstra falta de criatividade. Repetir, no meu caso, demonstra certeza. Coisa que me é rara. Sou homem de pouquíssimas certezas.

Uma das minhas certezas está relacionada às pessoas que me são especiais. Outra certeza – e que, aqui, repito – é que muita gente se aproveita de aniversários para dizer que certas pessoas são especiais. Estranho... pessoas especiais, mas que só merecem saber disso em um dia dentre 365 (ou 366). Esse é um dos casos em que prefiro ser repetitivo...

Quem me lê (especialmente quem diz que gosto de rodeios) já percebeu que hoje é aniversário de alguém especial. E o questionamento (que também não tem nada de inédito) pode surgir uma vez mais: se você não gosta de aniversários, por que escreve para algumas pessoas na data, e não em outro dia qualquer?

Simples! Eu não teria tempo de escrever para as pessoas que me são especiais todos os dias. E me confundiria ou me esqueceria de algumas se não tivesse um cronograma. Como é mais fácil fazer uso de um cronograma já criado (como a data de nascimento de cada um) que criar outro (imaginem o trabalho de definir outro dia para escrever algo pra quem eu gosto), optei por fazer uso do que está aí. Mas faço questão de fugir dos clichês...

É meio inútil desejar que as pessoas tenham saúde apenas no dia do aniversário. Mais amigável é ser companhia saudável no dia-a-dia. Desejar dinheiro e sucesso? A lógica social já as impele que sigam nessa busca. Prefiro influenciá-las para que persigam o contrário: desejo que elas transformem o seu “mundo”. Mas a pior parte, penso, é desejar amor. Amor não se deseja. Amor precisa ser vivido, partilhado, amado!

Hoje é aniversário de um amigo muitíssimo amigo meu (isso mesmo, com a redundância!). Não tenho muitos desejos. Só quero que a presença dele se repita em minha vida. Até hoje, nenhuma pausa foi suficiente para impedir que nossa amizade voltasse a se repetir. Espero que seja sempre assim!

Hugo Rocha

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Pra não dizer que não falei da morte

Ontem foi um dia especial pra mim. Não pela morte do Michael Jackson. Que ele seja mais feliz agora que enquanto esteve por aqui, é o meu sincero desejo! Como não podia deixar de ser, isso mexeu comigo. Principalmente com a minha mente e com os meus pensamentos sobre a vida e a existência.

Aos que me são íntimos, não é novidade que o outro tenha significado especial e prioritário em minha vida. Esses dias, em meio à leitura de Alguém que já não fui, livro brilhante que reúne crônicas brilhantes do brilhante Artur da Távola (outro que já nos deixou, no ano passado), deparei-me com uma afirmação que mexeu muito comigo:

O ser humano, estranhamente, se comporta sempre de forma pior com quem gosta, porque quem gosta acaba compreendendo. (grifo meu)

Assim que li, concordei imediatamente, apenas rememorando as minhas próprias atitudes. Tenho o dom de tratar de forma pior as pessoas que mais amo. E o que concluir disso, além de que é uma tremenda injustiça? Lamentável... A lógica seria tratar as pessoas que nos fazem mal de forma pior. E a quem nos faz bem, tratar melhor ainda. No meu modo de ver a vida, o correto seria tratar a todos da melhor forma possível. Infelizmente, meu agir muitas vezes escapa das rédeas do meu falar.

A Raquel completou 24 anos (que já não tem) de vida ontem! Como minha irmã, ela faz parte das pessoas mais injustiçadas do meu círculo de convivência. Pois lida diariamente com o privilégio de ser uma das pessoas que mais me compreende. Traduzindo: poucas pessoas sofrem com meu comportamento quanto ela, pois são raras as pessoas que passam tanto tempo comigo.

Há alguns dias, logo após ler essa crônica do Artur, decidi me esforçar ao máximo para tentar consertar essa brecha no meu agir. A ida do Michael ontem reforçou minha vontade (e também necessidade de mudar). Sempre aleguei que em minha vida não há espaço para buscar dinheiro ou sucesso humano. Não há nada que me atraia tanto quanto o desejo de amar e gostar daqueles que fazem parte do meu mundo.

A possibilidade de uma morte prematura me assusta. Não quero conviver com o risco de morrer sem deixar claras as minhas prioridades. Preciso tratar melhor quem eu amo. Quando morrer, desejo deixar apenas um legado aos que gosto. A certeza de que os amei acima de tudo. Sem restrições. Sem pausas. Sem interrupções. Quero que os momentos ruins sejam irrelevantes perto dos bons. E que sirvam apenas para mostrar a quem amo que aquele comportamento pior foi fruto da certeza de que o amor existente tudo suportaria. Até mesmo a incoerência...

Sim, a possibilidade da morte prematura me assusta. Mas bem menos que a chance de não deixar claro o amor que sinto pelos meus. Dentre os quais, a Raquel tem lugar especial. Não só no aniversário, mas também em qualquer dia que vem depois... como hoje!

Hugo Rocha

sábado, 20 de junho de 2009

Nos palcos da vida

A vida é trágica. Subimos no palco sem roteiro. Não passamos de atores sem texto para decorar. Personagens que atuam sem noção do instante que as cortinas descerão. Contracenamos com gente que acabamos de encontrar. Vez por outra escutamos apupos e procuramos as máscaras sorridentes, que disfarçam os constrangimentos. Sem coxia, não temos para onde correr. Assumimos diferentes papeis mesmo sabendo que a tragédia é inevitável. Sofremos. Quando nos acostumamos com os holofotes, o diretor grita: acabou o espetáculo.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim
trecho da meditação A vida

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é serio, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 8 de junho de 2009

(minha) estrela

No céu, uma estrela
No rosto, um sorriso
Na alma, um sonho

O que os pode separar?
A distância, talvez...
O que os pode unir?
Apenas a vontade!

Onde reside maior força?
No plano real
ou no ideal?

Nas promessas, quem sabe?!

Promessas eternas
Promessas não feitas
Promessas que não precisam ser feitas

Mesmo assim subsistem
Num sonho e num sorriso
E na (minha) estrela, que,
hoje, brilha muito mais!

Hugo Rocha

sábado, 6 de junho de 2009

Teologia

Hoje faria tudo diferente.

Começaria por informar meus leitores de que teologia é uma brincadeira, parecida com o jogo encantado das contas de vidro que Hermann Hesse descreveu, algo que se faz por puro prazer, sabendo que Deus está muito além de nossas tramas verbais.

Teologia não é rede que se teça para apanhar Deus em suas malhas, porque Deus não é peixe, mas Vento que não se pode segurar...

Teologia é rede que tecemos para nós mesmos, para nela deitar nosso corpo.

Ela não vale pela verdade que possa dizer sobre Deus (seria necessário que fôssemos deuses para verificar tal verdade); ela vale pelo bem que faz à nossa carne.

Rubem Alves

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Quero cantar o que vivo

Quero cantar o que vivo. Quero viver o que canto. Seja o meu riso, o meu pranto, viver e cantar. Harmonizar os meus sonhos. Poetizar minhas lágrimas. E, no contar dos meus dias, com Deus me encontrar. Que meu canto seja a Voz de Deus, por onde for. Verdadeiro e transparente como o Seu Amor. Pois Ele sabe os meus rumos, erros e acertos ocultos. Conhece a sinceridade do meu coração. Que eu seja sempre o primeiro a me encontrar em Sua Graça. E, em Sua misericórdia, transformar minha vida numa linda canção.

João Alexandre

terça-feira, 2 de junho de 2009

Sempre fui velho...

As pessoas se assustam quando digo que sou velho! O que é compreensível. Tenho apenas 22 anos (de acordo com o calendário gregoriano) e, a partir da visão cronológica do tempo, é impossível que alguém seja velho com pouco mais de duas décadas de vida. Mas não é que eu me sinta velho. Eu o sou... Certo está o Rubem, quando diz que a velhice nada tem a ver com o tempo medido pelo relógio. Para ele, a verdadeira velhice tem a ver com as batidas do coração. Sendo assim, não resta qualquer dúvida: sou velho! Meu coração já bateu (e ainda bate) demais!

Intensidade! Gosto dessa palavra. Vivo de intensidade em intensidade. Pouco tempo resta para a calmaria. Não há descanso... Os dicionários dizem que há intensidade onde existe muita atividade. E, para mim, a velhice é a fase da vida em que a atividade mais se manifesta. Outra vez só é possível entender o que digo a partir da realidade do coração. Não falo de movimento do corpo, mas de um rebuliço interno. Movimento provocado pela saudade. Movimento que se dá na memória e no coração.

Na velhice a saudade se manifesta. Trazendo de longe os muitos mundos que ficaram para trás. Lugares. Pessoas. Histórias... Mistura que transforma o passado em presente. Em meus 22 anos, já carrego muitos mundos dentro de mim. Passado que me visita diariamente. Intensidade que machuca, mas que também é bela. Lembro que quando eu tinha 17 anos, idade do Wendell, a intensidade já me visitava. Não experimentei a ‘pequenidade’ que ele, hoje, vive... Até mesmo as lembranças da infância me revelam: nasci velho!

Hoje, quando eu e Raquel voltávamos da nossa caminhada matinal, paramos para uma breve conversa com o ‘seu’ Manoel, como fazemos todos os dias. Ele, que tem 87 anos, conversava com um amigo de 79. Momento indescritível e delicioso. Minha alma foi visitada pela saudade dos meus dois avôs... Meus amigos! Ah, como eu gosto dos velhos (assim como o Rubem, detesto a palavra idoso).

Ainda há quem pense que o reconhecimento da minha velhice seja ruim. Acham que é um problema sério eu ser velho aos 22 anos. Tolos... Ignoram a beleza que há na velhice. Ontem recomendaram-me procurar a ajuda de um psicanalista. Querem obrigar-me a ser jovem. Apenas ri. E fui compreensivo. Como a velhice da alma não deixa marcas físicas, raros são os que percebem que nasci assim. O amor que tenho pela Vida confunde quem apenas compreende as batidas do relógio. À pessoa que me recomendou procurar ajuda na psicanálise, receitei que leia poesia! Talvez ela entenda a beleza da velhice. Talvez compreenda que “todos os poetas já nascem velhos!” (Rubem Alves)

Hugo Rocha
*Nota: texto escrito sob inspiração da leitura de As cores do crepúsculo – a estética do envelhecer (Papirus), de Rubem Alves.

. incoerentes .