segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Valeu, Deus!

Segunda-feira
Almoço com a família
Pai, mãe, irmã
Comida de domingo

O telefone toca
É pra mim!
Levanto-me e atendo

Do outro lado da linha,
a uma pequena distância geográfica,
separados por alguns bairros,
meu tio!

Indescritível ouvir a voz dele!
Em um segundo, lágrimas
Lágrimas de lá, e de cá

Pra que palavras,
quando um som comunica bem mais?
Quando dois corações se encontram?

Eu te amo, tio
E sei que posso contar com você
Sempre!
Nada me faria tão bem hoje,
como ouvir a sua voz!

Mais fortes que as palavras,
são as lágrimas,
que demonstram
minha gratidão!

Valeu, Deus...

Hugo Rocha

Apenas a uma pessoa

Na última sexta-feira tive um dos melhores dias da minha vida. Já vivi mais de vinte e dois anos, encontro-me bem próximo de completar o vigésimo terceiro, mas não me esqueço de nenhum dos encontros que marcaram a minha existência.

Nada melhor que um encontro não pré-agendado, daqueles que são resolvidos em pouco tempo, em menos de dez minutos. Na sexta foi assim. Um convite, a aceitação, o encontro. Tudo breve, mas nada passageiro.

Um encontro verdadeiro marca. Gera mudanças. E foi assim. Eu já a conhecia, já a havia visto algumas vezes, já nos considerávamos amigos. Porém, nossas almas ainda não se haviam encontrado como naquele dia. Encontro que produziu trocas, identificação e se alojou na eternidade.

É incrível o poder de transformação de uma pessoa que te faz caminhar por territórios desabitados da sua própria alma. Quando uma pessoa se revela, escancara a sua verdade diante de nós, só podemos aceitar. Indignos que somos de partilhar daquilo que o outro nos entrega. Melhor ainda quando essa revelação também nos desnuda.

Encarar a realidade - que antes era só nossa - no outro, tem poder de ajudar a superar as limitações. Descobrir que medos – tanto os reais, mas principalmente os imaginários, inventados, supervalorizados – são comuns, nos liberta! Perceber que o outro também tem dificuldade de permanecer no presente, nos acorda! É importante viver o agora. O amanhã é ilusão. Uma criação daqueles que se esquecem do hoje.

Há coisas da sexta-feira que só existem na “minha sexta-feira”. Não vale a pena esmiuçar. Não é inteligível a todos. Apenas a alguns. Talvez apenas a uma pessoa. Por isso, só me resta agradecê-la.

Obrigado... por me ajudar a firmar meus passos no presente;
Obrigado... por me ajudar a vencer a dificuldade de plantar, com medo de que todos colham os frutos, menos eu;
Obrigado... por me tirar do território da solidão e, de mãos dadas, me assentar na ambiência da comunhão;
Obrigado... por me ensinar a enxergar “aquilo” como nascimento, um bebê a ser gerado, que, na hora certa, irá nascer;
Obrigado... por me trazer um pouco da eternidade aqui, na Terra;
Obrigado... por me fazer enxergar Aquele que nos une – o Amor.

Obrigado, Lisa!

Hugo Rocha

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Fim, silêncio e saudade, muita saudade

Às 16h33, ele caminhava pelas ruas ainda agitadas do centro da cidade. O tempo nublado no fim da tarde o convidava ao silêncio. Ele ainda tinha uma hora e vinte sete minutos para decidir o que fazer. Naquele momento, em busca de silêncio, ele já sabia onde ir. Olhando para os próprios pés enquanto caminhava, a fim de evitar o risco de cruzar com algum olhar conhecido – ou mesmo desconhecido, que pudesse evocar lembranças depositadas num campo já abandonado da alma -, ele apenas seguia.

16h36. Em três minutos, estava lá. A construção antiga, majestosa, bela... Bela como o crepúsculo. Fim de tarde! Entrou. Lá, observava a quantidade de bancos e reparava nas pessoas, sentadas, bem distantes umas das outras. Uma coisa era certa: cada uma que estava ali só almejava um tipo de encontro: com o silêncio!

Lá dentro, na semi-escuridão, todos se igualavam. A luz rara entrava pelas portas e pelas pequenas frestas abertas nas janelas. Pessoas separadas por distâncias pensadas e unidas por dores distintas. Mas dor é dor! Por si só, tem o poder de unir (des)iguais. Devoção, reverência, respeito. Com o transcendente representado na existência do outro – nem sempre próximo, nem sempre amigo, mas sempre tão ferido e amargurado. Ele baixou a cabeça e se esqueceu do tempo. Parecia dormir. Entregue ao poder anestésico e analgésico do silêncio!

17h36. Ele tinha que sair de lá. A alma o convidava a ficar, mas o telefone começou a tocar. Saiu para atendê-lo e não mais voltou. Era a hora de partir. Encontros. Reencontros. Para alguns, sobrava disposição. Para outros, não! Um breve passeio pela ambiência do barulho. Pessoas apressadas, nervosas, estafadas... Ele estava de volta à realidade, muitas vezes tão feia e suja. Estava pronto para recomeçar!

17h45. Encontros! Um encontro belo. Um encontro que precisou ser parido. Um encontro que tinha tudo para ser desencontro. Noite de (re)encontros. Mais e mais encontros. Encontros com a realidade e com a verdade. Encontros com a mentira e com a dor. Mas pelo encontro que sua alma mais ansiava ele ainda aguardava. E, quando, enfim, a hora chegou, seus olhos se iluminaram. Um sorriso impossível de ser descrito. Um sentimento impossível de ser definido.

No fim do dia, restava apenas a lembrança viva de um encontro. Aquele encontro. Ele aprendera a valorizar certas coisas. Com isso, bastaria um encontro como aquele para subjugar todos os (des)encontros de uma vida.

Como era prazerosa a certeza de que aquele encontro não habitava mais o presente, nem mesmo o passado. Estava no território pertencente à eternidade. Era o suficiente para esquecer-se da dor da efemeridade de tantos encontros desencontrados que ele havia enfrentado na vida.

A noite chegou. Com ela, um questionamento vivo nascia! “Pode alguém plantar caquis e, na hora da colheita, encontrar morangos?” Ele tinha certeza que não. Mas também tinha certeza de que há muita gente que pense que sim.

Ele estava em casa, pronto para as dores da vida. Pronto para a má notícia. Mas a má notícia recebida não era a esperada. Era novidade. Novidade e sofrimento. Viver é dor. Sim, muitíssima dor!

Em alguns minutos já seria outro dia! Dia de tristeza. Data amarga. Luto!

No coração, apenas uma certeza. Era hora de mais uma de-cisão! De-cisões, na verdade...

Fim e silêncio. E saudade, muita saudade...

Hugo Rocha

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Mosaico

Embora a seca seque fontes e rios,
E os campos fiquem esturricados,
E o gado morra de sede e fome,
E as queimadas devorem os pastos,
E os machados transformem florestas verdes em desertos áridos,
E os palácios estejam cheios de corruptos –
A despeito disso minha alegria continuará a florir
E farei poemas diante do Impossível.


Rubem Alves
(adaptação de Habacuque 3.17-18)

um presente do Felipe, uma das peças mais belas da obra que tenho composto nos últimos dias!

sábado, 8 de agosto de 2009

Geração do Amor

A quem já me acompanha aqui no contradição™, uma novidade: agora escrevo também no blog Geração Renovada, ao lado do meu amigo-irmão Kennedy Lucas.

Lá falamos daquilo que nos une - o Amor de Deus -, de formas não convencionais ou pré-definidas.

Não é segredo para quem me lê que gosto muitíssimo da simplicidade e da beleza com que o Kennedy explora o Amor de Aba.

Eu já havia escrito dois textos para o Geração Renovada, a pedido do meu amigo. São eles: Chamados para fora e Unidos na caminhada – Cristianismo como uma jornada de Amor.

Já como membro da equipe, escrevi: O mundo alcançado pelo Amor, Em terra de lobos e Confiança. O último guarda relação com um desabafo que fiz no twitter: “as maiores decepções e feridas me são causadas quando as pessoas agem pensando em não me fazer mal. o melhor caminho é a verdade
#pensenisso

Fica o convite, não só para ler o que escrevi, mas as reflexões propostas pelo meu parceiro de caminhada.

Hugo Rocha

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Travessia

Diante de mim,
uma ponte que leva a outro lugar
A proposta do novo
O desafio de arriscar

Ora relutante, ora convicto,
começo a caminhar
Já estou sobre ela
Avançando
Minha visão se amplia

Do outro lado,
Novas histórias
Novos sabores

Para trás ficam,
antigos amigos
antigos amores
antigos favores

Agora tudo é novo
E, nessa nova terra,
renovar-se-á a minha esperança

Por enquanto, permaneço só
Até quando?
Pode ser para sempre,
ou pode ser que não!
Ainda não sei
Apenas espero
Vivo o hoje
O amanhã chegará,
como sempre chega!

O momento é de lutar
para fazer bela a travessia!

Hugo Rocha

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A felicidade tem um gosto de Vitória

Um colibri lá da serra,
cantando, veio me contar
Do povo feliz dessa terra
Que um dia nasceu beira-mar
Da igreja no alto da pedra
Da ponte que leva até lá
Do gosto do peixe em panela de barro que as velhas na vila sabem preparar
E o colibri cantou tanto
Que eu me convenci com seu canto
Foi obra do Espírito Santo esse lugar

A felicidade tem um gosto de vitória,
Feliz a cidade que pode se chamar Vitória
E é pura verdade:
quando alguém nasce em Vitória
já faz parte da memória do Brasil
da história do Brasil
da glória do Brasil
Vitória!

João Alexandre

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Definições

Definir-me seria um erro.
Definir a minha fé, um risco desnecessário!
Já disse que não gosto de rótulos.

Como está implícito na própria palavra, definir é impor um fim, estabelecer limites, demarcar fronteiras.

Não aceito os limites das definições. Não posso (nem quero) adequar minha fé aos conteúdos propostos por elas.

Sou essencialmente livre. Aceitei o convite do Amor. Quero apenas amar, tentar...

Minha fé não aceita fronteiras! Meu chamado é outro. Uma antítese das definições: nasci para construir pontes. Tarefa inesgotável. Infindável.

Em terra de opostos, quero ser um ponto de intersecção. Ser local de parada das vãs discussões que buscam provar quem carrega a verdade!

Almejo cruzar fronteiras.

Não posso me definir como cristão. Não quero me dizer católico. Não aceito que me chamem de crente. Não posso me dizer evangélico, protestante...

Não, não me considero melhor que aqueles que se contentam com as definições. Nem quero distância deles. Apenas não me conformo aos rótulos. Desejo então que todos me permitam ficar por perto... como aquele que une! Não aceito que tentem me converter, me delimitar.

Não sou melhor. Sou apenas diferente...

Num mundo de iguais, insisto em fugir das definições.

Gosto de ser assim... Livre... Como o Vento!

Minha fé precisa voar...

Hugo Rocha

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Outra razão

Sempre sou visitado
pela iminência da despedida
A certeza da ausência
A aproximação do fim

A consciência da finitude
aloja-se em minha alma
Espaço cativo, dominado

Sou preso por essa certeza
Mas, ao mesmo tempo,
também escravo da esperança

Certeza do fim
Esperança do recomeço

Um novo início
Uma outra chance
Um novo momento
Uma outra razão

para acertar

Hugo Rocha

sábado, 1 de agosto de 2009

A amizade

(Foto: Hugo Rocha)

Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê! Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...

Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo que já sentira antes. O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira.

A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.

"Christophe voltou sozinho dentro da noite. Seu coração cantava 'Tenho um amigo, tenho um amigo!' Nada via. Nada ouvia. Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu assim que se deitou. Mas durante a noite fora acordado duas ou três vezes, como que por uma idéia fixa. Repetia para si mesmo: 'Tenho um amigo', e tornava a adormecer."

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é sua amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou transar. Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, terminando o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio - que são insuportáveis. Nesse momento o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e cuja despedida se espera com ansiedade.

Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria, independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.

Uma estória oriental conta de uma árvore solitária que se via no alto da montanha. Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. Mas aquela árvore era torta, não podia ser transformada em tábuas. Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. Depois vieram os caçadores das essências em busca de madeiras perfumadas. Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.

Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. Diante do amigo, sabemos que não estamos sós. E alegria maior não pode existir.

Rubem Alves
(do livro 'O retorno e terno')

. incoerentes .