segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Em 2010,
"Em 2009,
Muitos pais perderão o emprego
Inúmeros não terão o que comer
Milhões sofrerão de pestes e doenças
Em 2009,
Milhares de crianças serão violentadas
Milhares de jovens se suicidarão
E outros milhares morrerão de overdose
Em 2009,
Alguns casamentos serão realizados
Muitos mais terão fim
Filhos perderão pais
Pais perderão filhos
Em 2009,
Novas guerras deixarão centenas de mortos
Muitos perderão partes do corpo decepadas por bombas
Crianças serão atingidas pelos tanques inimigos
Para 2009,
Não carrego mais esperança que em 2008
Um pouco menos, talvez
Mas, em 2009, continuarei a acreditar
Que o Amor pode ser a diferença
Mesmo que, na virada 2008/2009,
Sejam menos os que decidirão amar
Até por que Amor não se promete para o futuro
Apenas se decide viver no Hoje"
Para terminar, onde está escrito 2009, substitua por 2010! E 2008, troque por 2009.
É isso;
Hugo Rocha
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
O Natal!
É natal dos Reis que vieram de longe. E eles trouxeram as marcas de roupa, as músicas, as notícias e as tendências (pois mesmo sem acreditar, ainda assim, não dizem “Feliz Natal”, mas “Merry Christmas”). E trouxeram um modo de pensar para que as pessoas aceitassem; e aceitaram. Elas (as pessoas) vestiram suas roupas (que os Reis trouxeram), ouviram suas músicas, tenderam às suas tendências. Aceitaram tudo sem reclamar. Talvez por terem ficado cegos pela luz da estrela que esses reis trouxeram junto.
É também o natal dos sentimentos profundos. O amor, a esperança, a paz. Sentimentos que são imensos e profundos nas bocas, nos abraços, nos olhares, nos presentes. Mas só duram apenas um mês; em um ano com dozes meses. Infelizmente ou felizmente isso acontece, e já não sei mais o que falar.
Fez-se natal também para os doentes que estão aguardando cura. E para os famintos que querem comer. E isso não importa aos sadios e fartos: então é natal! Natal do presépio e das presepadas.
E mesmo o menino estando abafado, estando a virgem com medo, o pai apreensivo, os anjos calados, há o que anunciar: o silêncio.
E sou obrigado a me calar também. Pois se fez natal em mim e eu já não sei o que dizer. “Feliz natal”, talvez? Acho que não. Não ouso. Para quem usa as palavras, assim, sem saber o que significa, tudo bem... Que digam! Mas eu não.
Aos que amo: continuarei amando e me dedicarei a continuar sempre amando. E esta é minha sina. E continuar com ela é meu objetivo, não só no natal; mas no carnaval, nos dias de chuva, nos dias de tristeza e nos dias de raiva. E também naquele dia em que o vento é intenso e a escuridão também é intensa, e as palavras somem e não há o que fazer: sobretudo nesse dia, que eu continue sabendo o que é o amor.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Daquele que ama...
Era inevitável tentar fugir dela. Insistentemente, ela reaparecia. E nas horas menos apropriadas. Tentando retomar os laços, os antigos afetos, projetos. Mas... não! Ele não tinha mais qualquer disposição. A vontade de construírem algo juntos já se havia esvaído. Seu estômago se embrulhava só de pensar em retomar um relacionamento que tantas feridas lhe causara.
Convicto, ele continuara a fugir. Procurara novos ambientes, novos relacionamentos, novos amigos. Pessoas com quem pudesse desenvolver uma comunhão sadia e, assim, retomar o rumo de crescimento que havia abandonado, aos poucos, sem perceber, ao longo do tempo em que esteve junto a ela.
Ela o enojava. Ele tinha certeza que, por influência maligna, ela há muito havia deixado de ser aquilo que deveria ser. O rótulo não mais correspondia ao conteúdo que ela carregava. O asco era tamanho que até ouvir o nome dela o incomodava. Ele sabia que a imagem dela já estava em processo de falência. Muitos, gradualmente, começaram a perceber quem ela era.
Antes, admirada. Agora, rejeitada. Inevitável, pensava ele, seria a sua queda. Mas isso pouco importava. O que ele mais queria era se ver livre dela. Absolutamente. Liberdade. Um anseio. Uma vontade. Que, a despeito da busca, não se concretizava; insistia em não ser realidade. Seus amigos insistiam em trazer-lhe notícias. Informar-lhe sobre os novos rumos que ela tomara.
E, apesar de toda a repulsa que sentia por ela, ele só queria ficar longe, distante. Não lhe desejava nenhum mal. Ele sabia que, inevitavelmente, o mal lhe atingiria. Mas não seria pelo trabalho das suas mãos. Seu principal anseio era ser capaz de apagar, da memória, qualquer lembrança de que ela um dia existira. Impossível. Lembranças não se vão tão facilmente. Fortes como as que ele tinha, talvez nunca.
Mas o milagre (sim, só podia ser milagre) enfim chegara! Ele não mais sentia dores. De repente, ele acordou e percebeu que feridas antigas haviam se cicatrizado. A indiferença tomara lugar da repulsa. Ela não tinha mais poder sobre seus sentimentos. Ele, enfim, se encontrava liberto.
No coração, apenas uma pequena pontada de tristeza. Ele estava liberto, sim! Mas, assim como ele, muitos ainda se encontravam iludidos. Acreditavam e remetiam a ela amor, cuidado e admiração. Havia uma nova dor com a qual ele teria que lidar. Agora, a dor por ver outros – inclusive amigos - enganados por quem antes o enganara.
Não seria fácil. Mas essa dor não lhe causaria sofrimento como a anterior. Era uma dor diferente. Semelhante a um fogo que o incendiava. E motivava a seguir em frente, sem desistir do amor. Ele havia decidido aprender a amar verdadeiramente. E esse aprendizado o impulsionava.
Feliz, pôde constatar: ela não fazia mais parte da sua vida. O espaço antes dedicado a ela, agora, estava tomado. Seu coração foi invadido por uma certeza: verdadeiramente, todas as coisas contribuem para o bem daquele que ama...
Hugo Rocha
domingo, 13 de dezembro de 2009
Um lugar de segurança
Restituir sonhos é uma pretensão que carrego comigo. Ela nutre o meu desejo de ser casto, de ser do outro, não como objeto a ser usado, mas como um sentido a ser proposto. Carrego em mim um ofício que reconheço santo. Estabelecer as pontas da corda. Ser homem religioso, no mais profundo do termo. Viver para unir, para religar, congregar, para restaurar o que está danificado. Nestes tempos líquidos, ousar ser um lugar de segurança. Por meio de um gesto solidário, uma palavra bendita, uma celebração restauradora.
Fábio de Melo
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Minha vocação
Falas e sentimentos se misturam
na multidão;
e eu aqui, sozinho!
Essencial e extremamente só;
esse é meu destino,
minha vocação!
Mesmo que só não esteja,
só não deixo de ser.
A solidão me pertence,
e eu a ela também
Queira ou não,
uma só carne com ela me tornei
Sem possibilidade de separação...
até que a morte nos separe!
Hugo Rocha
em Goiânia, 3 de dezembro de 2009, às 18h11
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Você ama a Deus?
Mas meu amor por Deus, por algum motivo, se alastra em minha alma. Saí das formulações categóricas a seu respeito. Desdenho das descrições metafísicas de uma filosofia medieval, do rigor dos catecismos beligerantes, das lógicas fundamentalistas. Empolgo-me com Deus porque já não o percebo como objeto de estudo. Ele não está lá, em algum recôndito espiritual, transcendental, paradisíaco, nirvânico, esperando ser adulado, pesquisado, definido. Percebo Deus na vida, com tudo o que ela tem de beleza e de horror. Vejo Deus nos verdes matizados da floresta, no vigor dos mares, na poeira que a bruma espalha, nas mudanças bruscas do tempo. Eu o intuo também nos rostos sofridos, nas festas alegres, nas derrotas desesperadas e nos triunfos espetaculares.
Meu amor por Deus, não sei explicar, enraíza-se em minha alma. Quebrei as réguas legalistas da religião, elas sobrecarregavam meus ombros; eram jugos que me azucrinavam. Eu vivia com paranóia. Não o tenho como o Grande Olho, que tudo vigia e tudo cobra. Despedi o Deus intolerante com as inadequações, iracundo com os tropeços de homens e mulheres que, apesar de tudo, lutam pela vida. Diante de olhos paternos, tabus e interditos abrandaram, culpas infundadas e autocomiseração manipulada enfraqueceram. A religiosidade da sofreguidão empoeirou-se em minha alma. Rasguei as cortinas que só vazavam a luz mortiça de um mundo espiritual cruel. Adornei o tabernáculo da minha espiritualidade com vitrais coloridos. Convidei músicos. Recitei poesia. Quero transformar meu culto em festa.
Meu amor por Deus, com segurança, se intensifica. Aprendi que ele não é um títere. Tardei, mas aceitei que a história não está escrita e selada. Resignifiquei a liberdade como desafio para a responsabilidade. Voltei as costas para a Divindade que atropela, misteriosa, que esconde desígnios, que manipula fatos e que usa as pessoas para satisfazer projetos gloriosos. A linguagem hermética da teleologia, os paradoxos da teodicéia, o anacronismo da doutrina da predestinação sumiram da minha rede de sentidos. Sinto-me livre para relacionar-me com o Dançarino. Ele me convida para ser seu par na valsa do grande baile universal.
Meu amor por Deus, agora sei, tornou-se mais inspirado. Distancio-me de chavões, reluto contra os clichês que já usei para me convencer de convicções que nunca possuí. Ciente de meus sentimentos irregulares, eu me escondia na linguagem piedosa. Ah, como tentava ostentar o que não era. Assumi a fragilidade de minhas certezas. Engatinho na leveza dessa relação com o Amigo mais chegado que um irmão. Reconheço que em determinados momentos meu amor não passa de puro sentimentalismo - que também se mistura com militância e racionalidade. Sou assim, mas eu me sinto sinto liberto e feliz de saber que aprendo a amá-lo do meu jeito, sem despersonalizar-me.
Soli Deo Gloria