quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Breves pensamentos sobre uma amizade

Já era madrugada do dia 20 de setembro e ele se revirava na cama. Não conseguia dormir. Não resistiu ao impulso, levantou-se, abriu a janela e começou a contemplar as estrelas. Lembrou-se que já há algum tempo não fazia isso. E olhar as estrelas o levava para perto de alguns amigos que se encontravam fisicamente distantes. Nesta noite, em especial, sentiu vontade de fazer algo. Após vencer a voz que dizia que tudo aquilo era insanidade, procurou a estrela mais brilhante, fixou os olhos e começou a declarar em voz alta:

- Tenho um amigo, tenho um amigo, tenho um amigo, tenho um amigo...

Impossível precisar o número de vezes que ele havia repetido tal afirmação. Não era novidade que ele tinha um amigo. Ele tinha vários. Mas o número, naquele momento, não fazia a menor importância. Naquele instante, apenas uma coisa importava: ele tinha UM amigo!

O amigo que, três dias depois, completaria mais um ano de vida! E, no dia seguinte, seria a sua vez... Pensou nisso. Refletiu no significado que aquilo tinha. Não se importava se para todos os outros aquilo pudesse parecer uma bobagem qualquer. Para ele, definitivamente não era! O significado que aquilo tinha lhe dava uma imensa alegria. Pensou no quanto se orgulhava de fazer aniversário um dia depois do seu amigo. Isso era apenas uma representação do quanto eles estavam unidos. Nenhum misticismo, somente uma simbologia de que aquilo que os distanciava era muito menor que aquilo que os aproximava. Até os dias os levavam um para perto do outro...

Tentou se lembrar de como aquela amizade havia começado. Era um tanto difícil precisar. Lembrou-se de uma teoria desenvolvida a respeito do poder supremo da letra y. E não resistiu. Começou a rir com intensidade. Rememorou o dia em que haviam conversado pela primeira vez. Pensou no quão rápido, a partir dali, se reconheceram mais que simples colegas, mais que amigos... E nenhum deles gostava de modinhas, nenhum curtia se dissolver na massa a ponto de perder a identidade. Sim, era essa a palavra. A identidade forte e semelhante que carregavam era um dos fafores que os uniu. Rapidamente. Imediatamente. Assustadoramente...

Impossível determinar o tanto que as inúmeras conversas os haviam tocado... E transformado. Em pouco tempo, ambos já tinham deixado para trás muito do que outrora carregavam. Mesmo assim, era engraçado reconhecer o quanto eles eram parecidos. Para ele, que, até então, considerava impossível encontrar e gostar de alguém parecido consigo mesmo, era um tanto cômico perceber o quanto ele amava no seu amigo tanto o que lhe lembrava de si, quanto aquilo que ele não possuía. Era diferente gostar de alguém que, emocionalmente, lhe lembrasse de si! Descobriu que não era necessário ser totalmente diferente para ser único...

Seu amigo era único! Independentemente das inúmeras semelhanças que os uniam, cada um tinha a sua face própria... Por isso eram adjuntos. Uniam-se. Completavam-se. E ele percebeu o quanto era reconfortante perceber isso... Ele se orgulhava desta amizade. Alegrava-se por ter tido a graça de conhecê-lo. Extasiado, percebeu que, agora, era impossível considerar a hipótese de voltar atrás no tempo e fechar as portas para tal amizade.

Ela havia acontecido. Era realidade. O amigo era presente, a despeito de qualquer distância que o fizesse, em alguns aspectos, ser ausente. Ausência física plenamente compensada pela presença para a qual inexistem adjetivos... Lembrou-se de quando se encontraram. Lembrou-se do sorriso. Lembrou-se do que podia ter sido diferente. E viu que não valia a pena pensar no que não tinha sido perfeito. Melhor era esperar um novo momento. E fazer com que tudo fosse melhor... Novo... Diferente...

Inevitável foi lembrar-se do momento mais difícil: as lágrimas. A dor. Pensar no quanto a dor do amigo o feria. No quanto ele quis subjugar as barreiras de tempo e espaço, chegar onde o outro estava e tentar tomar para si um pouco da dor que o feria. Dor necessária. Dor que o fez crescer. Dor que fez a cumplicidade entre eles aumentar. Amizade forjada pelo tempo, pelas lágrimas, pelos sorrisos, pelas confidências, pelo espiríto crítico e mafioso que os unia! Ah, sim, eles haviam aprendido a rir da dor. A passar por ela cantando. Em cumplicidade. Em parceria...

Naquele momento, ele só queria ter o amigo ali, ao lado... Queria olhar nos olhos dele e sorrir. E pronto! Apenas isso seria necessário. Eles se entendiam. Um já sabia muito bem a linguagem que deveria ser empregada para ler o outro. Decifrar. Eram mais que amigos, eram cúmplices... Não apenas na máfia... Acima de tudo, eram cúmplices no compromisso de construir uma história! Totalmente diferente das histórias que eles costumavam ler por aí. A maioria delas sem graça, sem criatividade, baseadas apenas nas modinhas já existentes. Não, eles não se contentavam com nada disso. Nem sequer consideravam a hipótese de aproveitar nada do que já existia por aí...

Seria tudo novo. Tudo diferente. A cada dia, uma nova descoberta. Eles não se preocupavam com o fim da história. Queriam apenas que ela continuasse sendo feita da forma bela, nova e intensa, como até então havia sido... E, a depender de ambos, assim seria. Verdadeiramente, eles pouco se importavam com o futuro, com o fim daquela história. Na verdade, o que eles mais queriam é que esta história não tivesse fim. E ambos lutariam por isso...

Mas já estava tarde! Deixou as lembranças. Voltou ao presente. Lembrou-se que precisava dormir. Dali a três dias seria a hora de dizer: "parabéns, amigo!"

O que mais ele diria? Difícil... Nenhuma palavra parecia ser suficiente... Ele não diria muito... Amizade não se diz. Vive-se. Da mesma forma, ao invés de desejar tantas coisas em um só dia... resolveu trabalhar, ao longo dos dias daquela história, para que o que ele desejava ao amigo, em seu coração, se concretizasse em realidade...

Pronto! Deitou-se de novo... Fechou os olhos... Dormiu... E sonhou... Sonhou que, assim como desejava, aquela história não tinha fim. Sonhou que aquela amizade era eterna. E que a proximidade física que eles tanto desejavam se concretizara. Para sempre...

No sonho, lembrou-se de fazer uma oração: pediu a Deus que o amigo fosse feliz... Não só dali a três dias, mas em muitos outros. Seria demais pedir que fosse em todos. Contentava-se que, nos outros dias - os tristes, Deus ajudasse o amigo a sonhar. Com um futuro diferente. Com dias melhores.

E, acima de tudo, orou para que quando ele acordasse daquele sonho, apesar de ausente, o amigo continuasse sempre ali, presente... Dubiamente presente...

Hugo Rocha
Escrito na madrugada do dia 20 de setembro de 2010, às 2h29

2 comentários:

Anônimo disse...

Com as PALAVRAS podemos mostrar como somos felizes e como somos gratos por tudo que temos!E você AMIGO sabe fazer isso!Parabéns

André disse...

;)