terça-feira, 30 de novembro de 2010

A queda

Você já brincou de pular nas costas das pessoas quando elas estão andando na sua frente? Você vem correndo na direção da pessoa, pula e se pendura no pescoço dela. É sempre divertido quando a pessoa leva aquele susto, e quase cai no chão. Normalmente é algo que faço tão corriqueiramente, principalmente com os amigos que são mais altos que eu, que nem costumo me lembrar disso. Mas houve uma vez, a qual eu jamais esquecerei:

Tava um calor terrível. Belo Horizonte consegue ser um lugar estranho, com seus morros, seus dias quentes e suas noites frias. Eu precisava beber água. Ele foi comigo até o bebedouro no final do corredor. Ele voltou na frente. Eu vi a oportunidade e não queria perder. Tomei fôlego e comecei a correr. A corrida não durou nem dois segundos quando eu pulei! Pendurei-me no pescoço dele rindo... E então: PAM! Estávamos no chão. No início, o susto. O baque foi grande. Eu perguntei se ele tinha se machucado. Para minha surpresa, em resposta vieram as risadas que eu acompanhei empolgado como sempre faço com qualquer crise de riso, mesmo sem saber o motivo. Demoramos a nos levantar. Era estranho e engraçado. Ninguém nunca tinha caído comigo! Dizem que sou leve demais. Acho que exagerei naquele dia! Mas isso fez toda a diferença.

Posso não me lembrar de mais nada daquele dia, mas esse fato jamais saiu da minha memória. É engraçado pensar que uma queda pode ser a lembrança mais viva de uma amizade. Parece ser fora dos padrões. Mas acho que isso é o mais encantador, pensar que tudo nessa amizade é fora da lógica. Não pode ser rotulada!

Espero que essa lembrança seja tão viva para ele como é para mim! E se não for, espero que esse texto possa ajudar a vivificá-la!

Andy

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sobre a babaquice humana

A certa altura da aula, como de costume, o professor soltou um dos seus – desnecessários – gritos. Absurdamente irritantes. Só não mais que as suas piadas, sempre fundamentadas na ridicularização do outro. É fácil rir do outro. Difícil é o exercício de olhar para dentro de nós mesmos, e identificar o quanto somos risíveis. Exige coragem.

Uma das alunas não se conteve e disse – em tom de voz moderado: “não precisa gritar, professor”. Foi o suficiente para que começasse o espetáculo de desrespeito. O professor piadista não gostou da repreensão e passou a se aproveitar da posição de “domínio” sobre a turma para ridicularizar aquela que havia se queixado.

A atitude, mergulhada em imaturidade, remeteu-me a dois dias antes, quando assisti ao filme brasileiro “As melhores coisas do mundo”. Acompanhei o longa – que, entre outras coisas, mostra o desrespeito pelo próximo entre os adolescentes de uma escola – cercado desses adolescentes que, na mesma sala de cinema que eu, não conseguiam perceber que o filme os retratava. Suas atitudes, seu desrespeito e sua falta de consideração pelo próximo. 

No professor piadista, que há muito já não é adolescente, identifico a mesma falta de respeito ao próximo. A maioria pode aprovar e rir de alguém que se faz engraçado à custa de histórias e invencionices sobre o próximo. Eu não faço parte dessa realidade. Já disse, certa vez, que não respeito quem precisa gritar para se fazer acreditar, entender. 

Não me interessa se 90% das pessoas gostam de um professor piadista e, por isso, acham que ele pode desrespeitar quem quer que seja. Sala de aula não é democracia. Se uma pessoa se sente desrespeitada, não interessa se 50% mais um aprovam tal desrespeito. E não muda nada se esse número beirar os 100%. Cada pessoa ali tem o direito de ser respeitada.

No mesmo dia dessa aula, no ônibus, uma mulher esbarrou algumas sacolas em outra. Foi o suficiente para mais um festival de desrespeito. Palavrões desnecessários. Brutalidade assustadora. E pra que tanta ignorância? Um simples pedido de desculpas resolveria tudo. Mas reconhecer o erro é muito difícil. 

O piadista professor é um exemplo. Ao invés de apenas diminuir o tom de voz e vigiar para evitar gritos desnecessários, preferiu ignorar que uma característica sua incomoda (seja defeito ou não). É difícil encarar o que temos de ruim – e, mais complicado ainda, rir disso!

É bem mais fácil menosprezar a opinião alheia! 

Depois, queixamo-nos da corrupção dos nossos representantes políticos. Reclamamos da intolerância e da violência das nossas polícias. Sentimo-nos desrespeitados por atendentes em órgãos públicos e privados. Mas esquecemo-nos que o desrespeito começa em nós, em pequenas atitudes diárias, as quais nem sempre percebemos.

Quando é com a gente, o desrespeito é absurdo, crime, sem-vergonhice, pilantragem, safadeza... Quando é com o outro, é piada! Digna de aplauso e riso.

Hugo Rocha
Escrito às 16h31 do dia 10 de novembro de 2010

domingo, 7 de novembro de 2010

Assim como nós perdoamos...

A boa nova é esta: "Deus, em Cristo, estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação." (II Coríntios 5.19, NVI)

Esse versículo é um dos meus preferidos de toda a Bíblia. A meu ver, sua beleza reside no fato de exprimir o cerne da mensagem do Evangelho: Deus, o Pai, em Jesus, reconciliou consigo a humanidade. E toda essa realidade gira em torno do perdão que Ele nos concedeu, não levando em conta os nossos pecados.

Não levar em conta é o mesmo que esquecer! É o que Paulo nos diz: Deus se esqueceu dos nossos pecados. E a nós, seres limitados e falhos, entregou a responsabilidade de carregar a mensagem da reconciliação, cujo caminho é o perdão.

Sempre que começo a refletir (seja para escrever ou não) sobre tal verdade, inevitavelmente me assusto com a grandiosidade do Amor de Deus. Não dá para fugir do espanto quando se olha pelo seguinte prisma: o que fizemos para que o Pai decidisse nos amar? O que demos a Ele para que quisesse nos perdoar?

A resposta às questões é sempre a mesma: nada! Não fizemos nada, porque somos incapazes. E a principal característica do perdão de Deus é que ele é de graça, não depende de merecimento. Caso dependesse, podíamos jogar a toalha e desistir. O verbo merecer não pode ser conjugado junto à palavra graça. Isso não é regra gramatical. É condição inerente ao Amor de Deus.

Embora seja assustadora de início, a realidade do Amor de Deus acaba sendo aceita, independentemente de uma compreensão exata da sua significação. Mas não podemos parar por aí: o versículo de II Coríntios nos entrega uma outra realidade: o Pai confiou a nós a mensagem da reconciliação.

Se pensarmos de forma comparativa, é bem mais fácil aceitar o Amor de Deus. Complicado é repetir e deixar fluir, em nós, esse mesmo amor. Queremos ser amados, mas nem sempre queremos amar. E esquecemo-nos de que o Amor é tarefa árdua. Exige altruísmo, esvaziamento, compreensão. Basta pensar em como o Pai compreende aquilo que somos, aquilo que fazemos.

Não podemos esquecer que Jesus nos deixou uma missão: amar toda pessoa que nos cerca como a nós mesmos. Logo, aceitando o perdão de Deus, somos levados a perdoar também. É difícil perdoar as pessoas que nos ferem. Principalmente porque, quando feridos, esquecemo-nos que perdão não tem relação com merecimento. Assim como o perdão de Deus é iniciativa dEle, o nosso não deve esperar o movimento do próximo. Deve partir sempre de nós.

Minha oração é que quando orarmos pedindo ao Pai que perdoe nossas ofensas, dívidas e erros, tenhamos a consciência leve para dizer “assim como nós perdoamos...”

Hugo Rocha
Escrito às 22h15 do dia 7 de novembro de 2010

Tão somente se...

E, de repente, nada mais importava...
Nada mais fazia sentido
Nada o preocupava
Seguir não era opção
Era apenas racional, lógico
A vida continuaria...
Se, e tão somente se, ele continuasse
Tão somente só

Hugo Rocha

. incoerentes .