quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A respeito da minha ausência

Quando não quero conversar, na maioria das vezes, é apenas porque não quero conversar. Simples assim. E é só... Sem mais interpretações. Infelizmente essa simplicidade não basta para a maioria esmagadora das pessoas. Sempre buscam uma interpretação a mais. Mesmo quando ela não existe. E quase nunca existe...

Ainda bem que tenho amigos que conseguem entender isso de uma forma absurdamente simples. André e Renan são assim. Quando ligam e não atendo, não insistem. Esperam pacientemente até que eu, quando bater a vontade, os procure. Se não me atendem no retorno, sei que não é uma forma de retribuição. É o acaso, ou talvez a falta de vontade de conversar também naquele momento.

Quando recebo uma mensagem deles e não quero responder, sinto-me em paz, por saber que tal atitude não gerará neles qualquer dúvida a respeito daquilo que representam em minha vida. Não passarão horas tentando entender o que fizeram para que eu não os respondesse. Sabem que não fizeram nada. E isso lhes basta.

Assim são os amigos. Quando nos conhecem, esforçam-se para nos entender e se adaptar ao nosso jeito de ser. Quem é meu amigo sabe que tenho momentos que são só meus. Que chega uma hora em que quero me recolher. Ignorar todo contato e ficar em um mundo onde ninguém mais tem acesso.

Nesses momentos, posso estar bem ou não. Posso estar chateado ou não. Posso ter uma motivação externa ou não. Posso estar com problemas ou não. Simples. Chega uma hora em que minha alma pede por momentos assim. E isso pode acontecer em meio aos melhores ou aos piores episódios que vivo. Não há regra.

Confesso que é um saco eu simplesmente não estar a fim de conversar e saber que as pessoas cogitam explicações as mais diversas para isso. Procuram - até que encontram - problemas a fim de entender o motivo da minha ausência. E aquilo que, até então, não era problema acaba por se tornar.

Seria bem melhor que as pessoas aprendessem a esperar, em paz, o meu retorno. Eu sempre volto. Quem me conhece sabe. Se você não sabe, você não me conhece. Se não me conhece, provavelmente não temos importância na vida um do outro. Ou seja, o melhor a fazer é realmente não ter contato.

Pra mim, reafirmo, seria muito mais fácil lidar com amigos que sabem a hora de me deixar em paz. Que sabem que se não atendi a uma ligação o melhor a fazer é esperar até que eu retorne. Seja daqui a alguns minutos, a algumas horas, a alguns dias, a alguns meses...

Ser amigo não é obrigação. É escolha. Gostar não é obrigação. É escolha. E nessa escolha há sempre a margem para a individualidade, para que eu continue sendo quem sou. É por causa dessa margem que eu me afasto. Fico na minha. E volto quando quero. Simples assim.

Se você é meu amigo, você entende. Eu não estou sempre disponível. Se não entende e não aceita, nunca fomos e nunca seremos amigos. Sugiro a quem se enquadra no segundo grupo que procure a “amizade” em outro lugar. Os meus amigos, mesmo quando fico em silêncio, se sabem amados. E isso lhes basta... sempre!

Hugo Rocha 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Uma tentativa de explicar o inexplicável

Às vezes parece que foi ontem. Mas já se passaram mais de seis anos. O primeiro que conheci foi o Wesley. Nosso primeiro contato foi virtual, por meio de um blog de temática cristã. Deixei um comentário, um contato de e-mail. Não me lembro como, mas começamos a nos corresponder. Não nos suportávamos. O desprezo era recíproco. Ele me achava arrogante e chato. Com toda razão. Chato até hoje eu sou. Arrogante, bem menos.

Wesley e eu discutíamos a respeito das diferenças teológicas das nossas igrejas. Ele, neopentecostal. Eu, de uma igreja histórica. Eu me achava o dono da razão. Assim como todo bom evangélico, o poder exercia uma atração incrível sobre mim. Não gostávamos um do outro. Apenas nos suportávamos. As conversas serviam apenas para tentarmos provar, um para o outro, quem estava com a razão.

Até que um dia, sem que eu me lembre exatamente como, a amizade aconteceu. Sei apenas que uma dor dividida, com o intuito de afastar, teve o poder de nos aproximar. Tornamos-nos amigos.

O segundo encontro foi com o André. Eu estava totalmente perdido em um encontro de orquidófilos. Fui acompanhar uma tia e fiquei deslocado. Não entendia o assunto, não partilhava do gosto, apenas admirava a beleza das orquídeas. A tarde já estava enfadonha, quando o André chegou, o primeiro na minha faixa de idade naquele lugar.

Articulado que sou, rapidamente arrumei uma forma de puxar papo, pra tentar tornar menos desagradável a minha tarde naquele encontro. Deu muito certo. Conversamos durante horas, até a noite. E sobre tudo: orquídeas, música, teatro, cinema, religião, Deus... Trocamos contatos, mas durante seis meses não nos falamos, até que nos encontramos, de novo, por meio da mesma tia.

Fomos ao cinema assistir ao filme Happy Feet. Naquele dia, a amizade nasceu. E também surgiu a minha paixão por pinguins através da identificação imediata com o personagem principal da história.

O último da trupe que conheci foi o Rodrigo. Conhecido de um amigo meu, nossa amizade aconteceu por causa do nosso gosto por All Star. Em nosso primeiro encontro, um simples milk shake de morango deu origem a uma longa conversa sobre a Graça de Deus. Falamos durante horas sobre nossas dúvidas, inquietações, mas principalmente sobre o Amor de Deus.

Depois disso, nos esbarramos ao acaso na região da Savassi. Passou muito tempo até nos encontrarmos novamente. Foi em um domingo. Saí de um cansativo plantão na TV em que trabalhava e resolvi ir refrescar a mente na Praça da Liberdade. Lá, por acaso, eu encontrei o Drigo. Desde então, não nos afastamos mais.

Na medida em que conheci mais os três meninos – Wesley, André e Rodrigo –, percebi que os gostos deles eram bem parecidos. Resolvi apresentá-los. Tornei-me o elo que deu origem ao quarteto que se tornou inseparável.

Nunca me arrependi de tal feito. Muito pelo contrário: foi um dos meus maiores acertos até hoje. Por sermos muito diferentes, cada um de nós passou a cumprir um papel na vida dos outros, de uma forma única, especial, que nos ajudou (e ainda ajuda) a crescer e a superar os problemas e dores da vida.

Nosso companheirismo nunca foi superficial e espanta pessoas que estão acostumadas a uma convivência pautada no utilitarismo. Acho interessante perceber o quanto a Graça e o Amor de Deus marcaram a minha relação nessas amizades. Nossa união passa por muitos pontos, mas sempre parte do Pai.

Confesso que entre os quatro, o que mais se distancia em relação aos gostos e programas sou eu. Com o Wesley, compartilho a paixão pelo Diante do Trono. Com o André, meu gosto extremo por MPB. Já o Drigo é aquele que divide a minha paixão por doces e coisas infantis, além de algumas cantoras bem específicas.

De um tempo pra cá, essa diferença tem se tornado mais evidente. Aliada às mudanças que tenho enfrentado na vida – profissionais, emocionais, entre outras –, trouxe aos meninos uma incerteza. O medo de que eu estivesse cansado deles e estivesse me afastando. Resolvi então registrar em palavras (que é o que acho que faço melhor) a irrevogabilidade do meu amor por eles.

Há quem diga que a palavra dita se perde, uma vez que some logo após ser falada. Essas pessoas acreditam que a palavra escrita deixa mais marcas, pois deixa o sentimento registrado. Foi pensando nisso que escrevi este breve texto. Se fosse aprofundar a nossa história, escreveria um livro, ou talvez uma série.

É fato que mudei muito nesses seis anos em que caminhamos juntos, bem como os meus três amigos também mudaram. E é claro que meu sentimento por eles também mudou. Evoluiu, amadureceu, cresceu. De alguém que tentava cuidar deles, às vezes como um pai chato – que não quer que coisas ruins aconteçam aos filhos e se excede na preocupação –, tornei-me um amigo mais compreensivo e paciente. Aprendi a aceitar que cada um tem um tempo certo de amadurecimento. E não aprendi sozinho: eles me ensinaram. Assim como muitas outras coisas que não vou listar.

Já escrevi muito além do tamanho padrão que costumo escrever neste blog. Mas isso é só reflexo de amizades que fogem totalmente ao padrão. Antes de vocês, Wesley, André e Drigo, eu não sabia tão bem o que era amizade. Todos os outros amigos que tenho hoje passam pelo que aprendi com vocês.

Como aquelas conversas telefônicas de que falamos, André, encerro este texto. Sem mais!

Hugo Rocha

. incoerentes .