quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Hoje eu queria...

Hoje eu queria escrever com maestria. Sem lágrimas. Sem dor. Sem lamentações. Mas não sou maestro nem da minha própria vida. Sou absolutamente incapaz de reger os meus atos e coordenar seus desdobramentos e consequências neste mundo.


A dor está sempre presente em minha contradição. A dor que me dilacera e destrói é a mesma dor que me revigora e reconstrói. A dor que me consome é a mesma que me alimenta, que me movimenta. Mas não tenho medo dessa dor. Medos não me são comuns. Talvez eu seja cuidadoso... talvez, mas não medroso.


Não é novidade aquilo que agora sinto. Como brilhantemente descreveu Daniela Araújo, em Milímetro, “tudo está a se repetir, nada é novo por aqui.” Antes, ela também consegue expressar uma convicção que me habita: 


“Pode ir, se tiver que partir, estou sem medo de reestruturar minha vida a partir do partir.”


Recomeçar não é fácil, mas o próprio tempo me oferece a oportunidade para o recomeço. O mesmo tempo que “me ajuda a enxergar a cada momento que viver é amar” é o tempo que “não volta, nem pode parar, mas me dá a chance de recomeçar.


E é isso o que quero: recomeçar. Reestruturar. A partir do partir. A partir do fim. A partir daquele ponto em que se considera não ser mais possível retomar a caminhada. Talvez seja a hora de trilhar um novo caminho, “esquecendo o tempo que passou", segurando a mão do Pai.


A Ti, minha voz tem chegado com o seguinte clamor-pedido: “estou vivendo neste mundo, mas o que eu quero é Te encontrar. Por isso, peço mais que tudo: Volta!” Por muitas vezes, o cansaço é tanto, que a vontade que me toma é apenas uma: desistir. Nesses momentos, em Ti, procuro forças para continuar. Sou Teu, não tenho alternativa fora de Ti, Pai. 


“À sua imagem me fez, se revelou em mim com sua graça, seu amor...” Mesmo que minha carne muitas vezes negue, mesmo que eu faça o mal que não quero e fique longe de praticar o bem que quero fazer, percebo que a Tua graça se revela em meio à minha fraqueza, e por meio dela. “É só olhar para Ti, e eu entendo tudo o que se passa aqui dentro...”


E dia após dia preciso ser salvo do mal que me habita. “Não quero me iludir Senhor, de mim mesmo venha me salvar!” Preciso “deixar o Teu Amor me controlar, e descansar!”


Minha alma grita “não quero ser tão humano, Jesus... não quero ser tão instável...”! Preciso me entregar, deixar de sentir “o vazio da escuridão que atormenta o meu coração.” Sei que “um dia em ti descansarei... na dimensão da luz”, livre de mim mesmo, livre da dor, contido em Ti...


Dentre as muitas orações que, neste momento, poderia fazer, escolho esta:


“Tanta coisa pra falar, tanta coisa pra mudar, não quero querer, nem quero ter, só quero ser o Teu querer...  Quero Te servir, vem me conduzir. Em meio ao meu deserto, vem como nuvem me guiar. Nem preciso mais saber pra onde vou ou quanto tempo ainda falta pra chegar, pois eu sei de alguém que encontrou o seu lugar... E esse alguém sou eu. Não direi adeus. Eu sei bem aqui dentro que o Senhor não me esqueceu. Então, abre os meus olhos pra que eu possa ver: quero ver teu amor refletido em mim. Abro mão de mim mesmo. Guia-me!”


É o que agora e sempre preciso: ser guiado por Ti. “É tão difícil suportar essas falhas que me afligem”, mas acredito que em Teus braços posso descansar. “Eu não sou nada, eu não mereço", mas escolho-aceito desfrutrar da graça que me alcança...


Queria ter escrito com maestria, a mesma que enxergo-ouço nas letras e na voz da Daniela... Ah, como eu queria... Queria ter mais coragem...


Mas, nessas linhas, uma vez mais, derramei a minha alma e expus aquilo que realmente sou: fraco, incapaz de dar conta das minhas próprias ações. Um fraco que reconhece que precisa de Deus, que precisa acreditar que Ele existe. Alguém que, em meio a tanta dor, sabe que Ele é o único a quem pode recorrer. 


E, aqui, depois dessas linhas, ao Pai resta apenas um pedido:


“Dá-me coragem pra amar até o fim!”


*Todos os trechos em itálico e entre aspas foram extraídos das canções do álbum de estreia da Daniela Araújo, que traduziu como ninguém, em música, as orações que saem do meu coração. 

7 comentários:

Regina disse...

Às vezes, entro em choque, com você, nas muitas frases postadas no facebook. Achei linda esta sua declaração de amor, para Deus. A boca fala do que está cheio o nosso coração; neste caso, as suas mãos disseram e me alegrei! Lindo texto! Um beijo meu.

. rafael rocha. disse...

obrigado, Regina. até eu mesmo entro em choque com o que escrevo, e muitas vezes me assusto. mas, como disse Paulo, graças a Deus por Jesus Cristo... é só o que posso dizer. é Ele que me livra de mim mesmo... é sempre um deleite ver por aqui um comentário seu. beijos!

André disse...

sempre que tenho a oportunidade de me encontrar com a sua alma através das suas palavras percebo que realmente não estou sozinho! sinto sua falta! mas mesmo distante, sou grato a Deus por ter vc na minha vida, me mostrando como é bom admitir as fraquezas e confiar somente na ação de Deus, que faz a vida caminhar... amo vc!

Ana d'Oliveira disse...

Nuss q post profundo...essas semanas q passou busquei palavras...mas era pra vc escrever e me abençoar.

Maria Bethânia disse...

"Quando eu sou fraca, aí é que Ele é forte". Gostei do seu texto com algumas pequenas discordâncias, mas essas eu vou guardar para mim.

Amanda Mourão disse...

Nossa, quanto tempo não passo por aqui, e sempre que passo encontro palavras suas que me vêm como um soco, ao mesmo tempo como alento à alma. A eterna contradição, que até seus textos passam, e que os tornam cada vez mais profundos e aconchegantes. Deus lhe abençoe cada vez mais!

Caio disse...

Ei, Hugo! Quanto tempo!
Gostei muito do seu comentário e vim concordar. Nós temos mesmo um posicionamento parecido em relação a alguns aspectos, como a tristeza.
E isso me alegra muito, porque admiro suas opiniões e, principalmente, seus textos!
Meus parabéns mais uma vez por esse blog.
=)