quinta-feira, 26 de abril de 2012

Por que eu escrevo

Há alguns dias, postei no meu perfil do Facebook a seguinte frase: “Em nossos dias, há um consenso social contra a tristeza. Ser triste é imoral, quase um crime, absurdo, inaceitável. É preciso ser feliz!” Ela havia sido escrita há cerca de um mês, como introdução de um texto que eu pretendia escrever sobre a “tristeza”, mas que não consegui desenvolver. Por isso, decidi postar apenas a frase. Minha atitude foi parecida com a de Rubem Alves: ele tinha um caderno de anotações que pretendia desenvolver. Em 2008, decidiu publicá-las no livro “Ostra feliz não faz pérola”, da forma em que se encontravam, por temer não ter tempo para desenvolver as ideias e elas se perderem no tempo. 


A ideia central do livro do Rubem é a da dor como propiciadora de criatividade, movimento inerente ao processo de criação daquilo que é belo, aquilo que é arte. Assim como a ostra, que produz a pérola no processo de se proteger contra os grãos de areia que a ferem, o artista só produziria beleza por meio da sua própria dor. Daí a certeza: os maiores artistas são pessoas tristes. 


Não sei se é regra, mas vivo para saber, no corpo e na alma, dessa experiência. Em 2012, tenho escrito bem mais do que em 2011, que, de nenhuma forma coincidentemente, foi um ano muito melhor. O ano passado me trouxe algumas dores muitíssimo fortes, mas, a despeito delas, conseguiu ser um dos melhores anos da minha história, se não o melhor. Já 2012, ah, 2012 já começou carregado de dor, de amargura, de incerteza, de estreiteza. Caminhos que, de repente, se me tornaram tortuosos, íngremes, estreitos. 


A minha forma de lidar com isso é escrever. Quanto mais estreito o caminho se torna, menos bagagem eu consigo carregar. Nesse movimento de abandono, resta-me a força suficiente para manter comigo o papel e a caneta. E, assim, escrever. Colocar a dor nas palavras, numa tentativa talvez desesperada de transferir a dor que me dilacera para o papel. Que ela o rasgue, assim como rasga o meu coração. 


Muitos têm reclamado, comentado e se preocupado com a minha tristeza. Algumas dessas intervenções, confesso, têm o poder apenas de me causar mais tristeza. Alguns dizem que sofrem ao me ler, que têm medo de mim. E eu começo a me questionar: é justo que, alegando amor, alguns me peçam para evitar a única alternativa a que recorro na tentativa de amenizar a minha dor? Se eu falasse, seriam obrigados a me ouvir. Quando escrevo, a leitura é opção, às vezes até convite. Mas mesmo o convite é democrático: pode ser aceito ou não. 


Alguns não entendem as minhas linhas, e falam, e machucam. Outros compreendem a minha dor, e alam, e me tocam. Outros, ao compreendê-la, apenas se calam, em reverência. Esses tocam-me mais ainda, mesmo que contraditoriamente eu nem sempre os (re)conheça! Mas há ainda um outro grupo: o daqueles que batem, com força, de forma cruel. A esses, deixo um recado: 


Podem bater! Estou aqui pra isso. Mais forte do que NUNCA! Só pra reforçar: a despeito de todas as dores e pancadas que a vida me traz, agradeço a Aba, pelo Infinito Amor que insiste em me alcançar...

7 comentários:

Gabriela Vilaça disse...

Acho que passamos pela mesma situação, meu amigo... Quantas vezes tive que responder ou justificar a alguém os meus textos no blog? Achei lindo esse texto seu. Reconheço-me bastante. Beijo carinhoso!

. rafael rocha. disse...

obrigado, Gabi! nas palavras, nos encontramos. penso que as palavras não devem ser justificadas. quem pede explicações, normalmente não tem parte em nós... um beijo!

Vicko Augusto disse...

Lindo texto amigo...eu amo esse seu jeito de se expressar...acho muito bonito mesmo...embora nem sempre leio/comento tudo aqui no blog...mas adoro ler seus textos! Muitas vezes quando estava perdido me encontrei nas suas palavras! =D
Te Amo amigo...e será eterno!

. rafael rocha. disse...

obrigado, amigo! faz-me bem saber que nos encontramos por aqui... o sentimento é recíproco... :)

André disse...

acho que abandonei a escrita e passei a falar demais como reflexo da minha tristeza... te invejo nesse sentido... acho que fiquei chato demais.
bem, mais um belo texto irmão... parabéns!

. rafael rocha. disse...

obrigado, André, meu irmão! sua opinião me é muitíssimo importante!

fiLipe Arêdes disse...

Para além das regras... Essa questão me lembrou de um texto do Calligaris, sobre impor ao outro o seu modo de ser feliz e, porque não, o de ser triste também? Se tiver interesse, aqui vai um link do texto:

http://orientacaopsi.blogspot.com.br/2010/06/contardo-calligaris-o-direito-de-buscar.html

Um abraço, amigo! Continue a escrever - seja como for e estiver.