sábado, 11 de outubro de 2008

Desatino

Não nasci destinado a ser prioridade. Desde criança, senti de perto o desprezo de pessoas próximas. Experimentei a dor de não ser um dos mais queridos e desejados nos mais diversos lugares. Senti na pela a dor da rejeição. Vivi como “aquele que ninguém deseja por perto”. Não precisei crescer muito para já ter uma certeza: não me estavam reservados os primeiros lugares. Tímido, péssimo em todos os esportes e atividades físicas, sem aptidão alguma para qualquer brincadeira infantil ou mesmo adolescente.

No futebol, não sirvo nem para goleiro. Eu fugiria da dor das boladas. Não aceito a dor. Nunca consegui ter controle sobre um videogame. As manetes me escapam à mão. Não domino a informática. Esbarro no básico. Não sei dirigir e tenho medo de trânsito. Para piorar, meus olhos não me permitem enxergar bem à distância e, frequentemente, perco os ônibus e fico horas a esperar, no ponto, sentado, sozinho.

Sou preguiçoso, admito. Nunca gostei de trabalhar pesado e não tenho ânsia de demonstrar força. A vontade da “vida boa” sempre vence a necessidade de exposição. Sempre fui nervoso. Tive que ouvir falarem de mim pelas costas sem nada argumentar. Nunca tive defensores. Ninguém a legislar por mim.

Meu rosto é cheio de espinhas. Odeio fazer a barba e cortar o cabelo. Por isso, muitas vezes fui/sou chamado de mendigo. Na mesma proporção, quando criança eu odiava tomar banho e escovar os dentes. Tenho medo até hoje de dentistas. Perdi a conta de quantas vezes me disseram: “você já tem cabelos brancos”. Receber dos outros uma idade maior que meus 22 anos também é fato recorrente.

Nunca fui feliz. Nunca pude me gabar de ter muitos anseios e expectativas em relação à vida. Já acreditei nas pessoas. É, o verbo está no passado. Hoje descobri que elas fazem o mundo feio. Já desejei muito a morte. Já tentei aproximá-la. Engraçado é que isso ocorreu justamente na fase em que eu acreditava nas pessoas. Agora, incrédulo, outro sentimento se inverteu na mesma medida: eu gosto da vida, não quero morrer. Por quê? Simples. Não espero mais nada das pessoas. A vida já me oferece o suficiente. O prazer que encontro no caminho me faz querer prosseguir. A vida vale a pena, mesmo que as pessoas normalmente não acompanhem essa lógica.

Hoje estou acostumado a não ser prioridade para ninguém e não tenho esperanças de um dia vir a ser. Hoje me descobri feliz com o essencial. E não adianta pedirem, pois não é possível explicar. Nem mesmo eu entendo por que gosto da vida, mas gosto! E isso basta. Vou seguir. Não há nada nem ninguém capaz de mudar isso em mim. É algo que “aconteceu” e que “é”. Não é sentimento “produzido” nem que “está”.

Hoje apenas sigo, em meu desatino! E em alguns raros momentos me deixo iludir e penso ser essencial e especial para, pelo menos, alguns dos que me cercam. Um pouco de loucura não faz mal. Ajuda a viver. É gás para vencer a sina de ocupar, sempre, os últimos lugares.

A despeito disso tudo, não há ninguém que ame mais que eu essa coisa chamada vida.

Hugo Rocha

3 comentários:

jess_ disse...

o especial é feito pelo olhos de quem vê e enxerga diferença dentro do essencial.

perplexa com o comentario

=]

Telma disse...

Nossa Hugo, seu texto é de uma profundidade incrível, cheguei a me emocionar... Acredito que Deus tenha lhe dado um dom da sensibilidade e da alegria, do saber viver, e ao meu ver estas são aptidões mais valoráveis do que aquelas que você diz não tê-las. Enfim seu texto me fez lembrar de uma frase de Epicuro,que diz o seguinte: "só há um caminho para a felicidade, não nos preocuparmos com coisas que ultrapassam o poder da nossa vontade".

.hugo rafael rocha. disse...

sensacional a frase, telma! uma vez mais, obrigado =]