quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Sobre a babaquice humana

A certa altura da aula, como de costume, o professor soltou um dos seus – desnecessários – gritos. Absurdamente irritantes. Só não mais que as suas piadas, sempre fundamentadas na ridicularização do outro. É fácil rir do outro. Difícil é o exercício de olhar para dentro de nós mesmos, e identificar o quanto somos risíveis. Exige coragem.

Uma das alunas não se conteve e disse – em tom de voz moderado: “não precisa gritar, professor”. Foi o suficiente para que começasse o espetáculo de desrespeito. O professor piadista não gostou da repreensão e passou a se aproveitar da posição de “domínio” sobre a turma para ridicularizar aquela que havia se queixado.

A atitude, mergulhada em imaturidade, remeteu-me a dois dias antes, quando assisti ao filme brasileiro “As melhores coisas do mundo”. Acompanhei o longa – que, entre outras coisas, mostra o desrespeito pelo próximo entre os adolescentes de uma escola – cercado desses adolescentes que, na mesma sala de cinema que eu, não conseguiam perceber que o filme os retratava. Suas atitudes, seu desrespeito e sua falta de consideração pelo próximo. 

No professor piadista, que há muito já não é adolescente, identifico a mesma falta de respeito ao próximo. A maioria pode aprovar e rir de alguém que se faz engraçado à custa de histórias e invencionices sobre o próximo. Eu não faço parte dessa realidade. Já disse, certa vez, que não respeito quem precisa gritar para se fazer acreditar, entender. 

Não me interessa se 90% das pessoas gostam de um professor piadista e, por isso, acham que ele pode desrespeitar quem quer que seja. Sala de aula não é democracia. Se uma pessoa se sente desrespeitada, não interessa se 50% mais um aprovam tal desrespeito. E não muda nada se esse número beirar os 100%. Cada pessoa ali tem o direito de ser respeitada.

No mesmo dia dessa aula, no ônibus, uma mulher esbarrou algumas sacolas em outra. Foi o suficiente para mais um festival de desrespeito. Palavrões desnecessários. Brutalidade assustadora. E pra que tanta ignorância? Um simples pedido de desculpas resolveria tudo. Mas reconhecer o erro é muito difícil. 

O piadista professor é um exemplo. Ao invés de apenas diminuir o tom de voz e vigiar para evitar gritos desnecessários, preferiu ignorar que uma característica sua incomoda (seja defeito ou não). É difícil encarar o que temos de ruim – e, mais complicado ainda, rir disso!

É bem mais fácil menosprezar a opinião alheia! 

Depois, queixamo-nos da corrupção dos nossos representantes políticos. Reclamamos da intolerância e da violência das nossas polícias. Sentimo-nos desrespeitados por atendentes em órgãos públicos e privados. Mas esquecemo-nos que o desrespeito começa em nós, em pequenas atitudes diárias, as quais nem sempre percebemos.

Quando é com a gente, o desrespeito é absurdo, crime, sem-vergonhice, pilantragem, safadeza... Quando é com o outro, é piada! Digna de aplauso e riso.

Hugo Rocha
Escrito às 16h31 do dia 10 de novembro de 2010

2 comentários:

Jônatas R. Santos 13º disse...

Bom mano, muito bom, me fez pensar.....abraço!
O finalzinho me fez refletir que muitas coisas das quais nos gabamos, e por outros são achado em nós como virtude, para outros, porém, pode ser insuportável, um defeito....
É assim né mano, paradoxal a vida, tenhamos sabedoria, silêncio...

Tempo... agora! disse...

Digno de aplausos são suas reflexões, que todos deveríamos parar alguns minutos para pensar, e agir diferente, porque basta alguns segundos de pensar antes de agir para que tudo se torne mais respeitável e humano.