terça-feira, 12 de abril de 2011

Um dia na primavera

Naquele dia de primavera, acordou mais cedo do que estava acostumado. Sob o chuveiro, recebeu cada gota de água como um presente, como coisa rara. Através do vidro da janela, os raios do sol iluminavam não apenas o ambiente, mas pareciam levar luz também à sua alma.

Vestiu a camisa que comprara uma semana antes, a calça preferida, já surrada. Não se importou com o contraste entre novo e velho. Um All Star excessivamente gasto, e na mesma medida amado, completou o look daquele dia de setembro. Sentou-se à mesa para a refeição matinal: café, pão com manteiga, queijo (minas, é claro), pão de queijo.

Escovou os dentes, pegou outro dos seus velhos acessórios: a mochila. Saiu. De casa até o local de trabalho, apenas alguns minutos. Seguiu, contemplando a beleza daquele dia, as árvores, as flores, os pássaros. “Como é gostosa a vida”, pensou. E agradeceu a Deus pelo privilégio de viver mais um dia.

Por volta do meio-dia, almoçou: peito de frango grelhado, arroz branco, salada. Um suco de uva para acompanhar. Como sobremesa, um pedaço caprichado de torta de chocolate com nozes. Era hora de ir embora. Despediu-se dos colegas e partiu, uma vez mais.

Sentou-se sob uma árvore, retirou da mochila Poemas completos de Alberto Caeiro e pôs-se a ler, evitando pensar. “Pensar é estar doente dos olhos.” Com tanta coisa bela para contemplar...

Depois de algum tempo, levantou-se e partiu, de novo. Lembrou o quanto a vida é cheia (de chegadas e) de partidas. “Todos os dias é um vai e vem...” Ah, a vida... Mas evitou pensar. Seguiu, contemplando, com o espírito reverente e grato.

Voltou para casa e dormiu por cerca de duas horas. Começou a preparar a casa para receber as pessoas especiais e relevantes. Por volta das 18h, a mãe dele chegou. Sem dúvida alguma, era ela a pessoa mais importante da sua vida. Um abraço, um beijo, um afago. Lembrou-se de quando criança não saía do colo dela.

As outras pessoas chegaram. Todas recebidas com um beijo sincero. Conversaram, rememoraram, riram, brincaram, comeram, beberam... E a noite passou, como um sopro. Fugaz... Logo chegou a hora das despedidas.

Todos já haviam ido, decidiu não arrumar a casa. Estava cansado. Estava feliz.

Já na cama, ligou a televisão e o aparelho de DVD. Colocou um dos seus preferidos. Fechou os olhos e orou, agradecendo ao Eterno por mais um dia vivido. E por todos os dias que tivera até ali. E também por aqueles que ainda viveria.

Ao som da sua canção preferida, com um imenso sorriso nos lábios, dormiu.

E morreu...

Hugo Rocha

Um comentário:

André disse...

acho que já disse isso sobre muita coisa que você já escreveu... mas é o que é: belo e triste.
e ao mesmo tempo tão libertador e feliz...
boa forma de morrer...

saudade de você também!